Turismo vai para…


Ellis Island Immigrations (18)

Recentemente li  um artigo sobre o hipotético processo de escolha dos conselheiros (secretários) por prefeitos espanhóis. É claro que o artigo é uma alegoria e nem na Espanha, e nem no Brasil, o processo é assim, ou será que é, e isto é universal?

Rafael Fuentes, o autor do texto (cujo original pode ser lido aqui http://www.hosteltur.com/comunidad/004304_tu-tu-tu-para-turismo.html) transcreve um hipotético dialogo entre o prefeito e um auxiliar antes da nomeação do secretariado municipal, dialogo este que adaptado à nossa realidade política, uma vez que o sistema espanhol é parlamentarista, pode ser assim traduzido:

Prefeito,  está havendo muitas cobranças a respeito do secretariado, a data da posse já se aproxima, seria interessante vermos isto para evitar mais especulações.

—Tem razão Luis, vamos ver logo isto.

— Genial Prefeito, o Senhor como sempre brilhantemente decidido.

— Claro, claro, …, então Luís quais são as indicações que temos dos partidos , faça a lista de secretarias para que a gente possa distribuir de acordo com as competências.

— Está aqui Senhor, estes são os nomes que foram indicados pelos partidos coligados.

O Prefeito olha a lista de nomes seriamente durante dois minutos, enquanto os assessores esperam que diga algo, e de repente o Prefeito começa a sua reflexão.

—Vejamos… Maria é  bióloga, certo?

—Sim, Senhor.

—Pois anote aí. Ela será a Secretária do Meio Ambiente.

— Vamos em frente.  Antonio é Professor, não é verdade?

— Sim, Senhor.

—Então ele será o Secretário de Educação e Cultura.

— Sabia decisão Senhor Prefeito.

—Obrigado Luís, mas siga anotando.  Carmelita é economista então daria uma excelente Secretaria de Finanças.

E assim segue o Prefeito, sob a bajulação dos seus assessores, dividindo as Secretarias,  até que chega ao nome de Manoel

— Luis, você por acaso sabe qual é a profissão, ou formação de Manoel?

Diante da inesperada pergunta o assessor duvida.

— Desculpe senhor, mas não me lembro.

— Não tem importância, vou nomeá-lo Secretário de Turismo, afinal ele gosta de viajar.

E assim nosso amigo Manoel passa a ser o o Secretário Municipal de Turismo  e de uma hora para outra o maior entendido no assunto em todo o município.

É curioso, mas se produz um estranho milagre quando alguém, não relacionado com a atividade turística, é guindado a um cargo na área de turismo  no dia seguinte, sem pudor algum, já começa a se pronunciar dizendo o que fazer para “melhorar o turismo”.

E na quarta-feira, recém-nomeado, o nosso amigo Manoel chega à Secretaria e reúne todos os três funcionários, e diz, a todos os três, que o que se fazia antes não era certo, que de agora em diante é que  tudo vai ser certo, que “vamos mudar o que se fazia”, seja lá o que se fazia. Ufanista Manoel declara que dentro de quatro anos o município vai passar a viver de turismo, e que não vai se parecer em nada com o que é agora.

E os funcionários, todos os três, o escutam atentamente e pensam “outro que pôs um chapéu e já se acha general”. Mas só pensam, já que sabem que quem disser algo será condenado a ficar mexendo com papéis em um canto da sala, e papel é o que não falta na administração pública. Assim os funcionários o escutam atentamente, felicitando-o por sua nomeação e, educadamente, se colocam à sua disposição.

Dada a importância que o turismo tem para a economia dos município é inimaginável que a pasta ainda seja a única a não ter o mínimo de critério técnico para a nomeação do responsável uma vez que em grande parte dos órgãos municipais o Secretário é mais um funcionário a se agregar à pequena equipe, não podendo, assim, se prescindir de alguém que tenha o mínimo de conhecimentos sobre a área sob pena de a ação da Secretaria se resumir a organização (na última hora, diga-se de passagem) de eventos e confecção de folhetos com design encomendado a alguém que sabe mexer no Corel Draw.

Recentemente o Ministro do Turismo, Henrique Alves, declarou  “Quando chega um ministro com mais força política, ele pode impor uma agenda mais relevante. O Ministério do Turismo não precisa de técnicos, precisa de força política para fazer o Governo entender que o setor deve fazer parte das prioridades do País”. Porém ele também afirmou que “a pasta tem um quadro técnico muito competente e que permanece”. Ou seja no caso do Ministério, e de Secretarias que têm um quadro técnico satisfatório para atender as demandas pode-se sim aliar a força política com a capacidade técnica, porém é fato que isto somente é válido se o político for capaz de se cercar de profissionais competentes, com conhecimento e experiência na área, normalmente quadros já existentes na pasta, ao invés de trazer pessoas de sua confiança que tenha o mesmo nível de conhecimento que ele e, justamente por possuir a confiança do titular passar a dar as ordens em matéria que desconhece.

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